quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Cartografia: a multilateralidade no teatro

                                                              Gilberto dos Santos Martins
                                             Ator, Professor e Mestrando em Artes-UFU

“Cartografia como dissolução do ponto de vista do observador”, texto elaborado por Eduardo Passos e André Eirado, é uma sugestão de metodologia, aplicada à Psicologia, muito pertinente no contexto da pesquisa do teatro.
Os autores articulam a metodologia com três planos de ação: a transversalidade, a de implicação e a de dissolução do ponto de vista do observador. As convenções da comunidade científica foram alvo de muito debate no âmbito dos pressupostos da objetividade no que tange a observância do conhecimento. No entanto, as ciências humanas ao longo dos tempos têm apresentado alternativas de utilização e aplicação dessas ciências, às vezes contrapondo-as, às vezes complementando-as.
Os autores propõem prensar o método cartográfico como uma possibilidade de aplicação nas ciências humanas e sociais, em detrimento de apenas fixar-se à crítica dos métodos e procedimentos inexoráveis da ciência pura, a esta, a ciência positivista, há uma separação visível e grupalmente acordada, “a neutralidade e objetividade do conhecimento, ambas garantidas pela distância mantida entre aquele que conhece e aquilo que deve ser conhecido” (Passos e Eirado, p. 155), no sentido de obter a eficácia dos resultados esperados nos experimentos. Sujeito e objeto se diferem, absolutamente, emergindo uma relação cognoscente a partir da postura de terceira pessoa. Podemos pensar nas experimentações científicas do rato e do macaco sultão behavioristas, que nos revelam um método imerso na concepção da pura insubordinação dos pontos de vistas, tendo-se, pois, um e exclusão automática dos demais. Onde os olhares acerca do objeto, verticais e/ou horizontais, se fecham nessa bilateralidade. Entretanto, muito se tem questionado essa redoma ao qual o objeto e sua significação/interpretação ficam refém, inviabilizando possibilidades de significados por outros meios e pontos de vista, como afirmam Passos e Eirado (p. 115) “coloca-se em questão o olhar de cima da ciência e a ação judicativa de quem avalia o objeto do conhecimento com a distância da neutralidade”. Partindo do ponto vista da neutralidade, não nos detendo e defendendo tal postura, pensaremos aqui o teatro e suas possíveis abertura a essa metodologia.
No contexto teatral há muito vem se debatendo o interstício na pesquisa sobre o teatro e em teatro entre teoria e prática e como esses lados se inter-relacionam na realidade tanto artística quanto acadêmica.
O conceito de transversalidade, proposto no texto dos autores, a óptica do objeto e sua relação com o sujeito muda de proporção, onde a vinda de um terceiro eixo comunicacional com a realidade pesquisada se refaz. Segundo Passos e Eirado:
“o plano da transversalidade expressa uma dimensão da realidade que não se define nos limites estritos de uma identidade, de uma individualidade, de uma força (esse saber, o meu saber, o saber que o outro tem e que pode me transmitir), mas experimenta o cruzamento das várias formas que vão se produzindo a partir dos encontros entre os diferentes nós de uma rede de enunciação da qual emerge, como seu efeito, um mundo que pode ser compartilhado pelos sujeitos”.( PASSOS e EIRADO,   p. 115)
            A transversalidade apresenta um direcionamento no sentido de uma experiência comunicacional agregando linhas de pensamento ainda não vistas ao invés de suprimi-las ou até mesmo eliminá-las do objeto ao qual se propõe a investigar. Meios suscetíveis de habitação de pontos de vista, sem apologias e restrições conceitos dogmáticas e inquebrantáveis. O tratamento do objeto dar-se-á por múltiplas versões de olhares interiores e exteriores, fornecendo não apenas uma opinião hegemônica, mas possíveis multilateralidade de significação.
            No teatro o método cartográfico é uma boa possibilidade de caminhada em busca do não possível positivista. Quais as linhas sensoriais que um trabalho teatral pode me oferecer enquanto pesquisador-atuante? Quais as linhas que limitam a minha relação com a obra pesquisada? A cartografia nas Artes Cênicas pressupõe percepções e sensações que o meio investigado desabrocha no corpo do cartógrafo, indo de encontro à barreira sujeito/objeto.
            A transversalidade cartográfica não está ligada à descrição (Etnografia) ou medições da obra, mas sim, a busca de sentido no lineamento de enunciações possíveis na obra. No campo do teatro uma relação de distanciamento também é possível, comumente aplicada nas universidades (Mestrado e Doutorado), mas o resultado nem sempre condiz com o que foi proposto. O que está disposto à imersão na obra, na pesquisa e lançar mão de mecanismos de apreensão do subjetivismo é, talvez, um caminho um pouco menos angustiante, onde as ondas do que não se pode ter no plano do concreto agem no sujeito advindo daí uma terceira perspectiva ou eixo inviável numa postura positivista de neutralidade e distancia do sujeito em relação ao objeto. Aqui sujeito e objeto se justapõem criando imagens, sensações que por mais, no plano do senso-comum, esteja na abstração, a sua interferência na realidade e possíveis modificações são reais de ocorrerem. Assim, podemos pensar a cartografia como um meio eficaz de apreensão de uma linguagem efêmera, fugaz e condicionante à transcendência.
REFERÊNCIAS

PASSOS, E. EIRADO, A. Cartografia como dissolução do ponto de vista do observador. 

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Cartografia: a multilateralidade no teatro

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                                             Ator, Professor e Mestrando em Artes-UFU

“Cartografia como dissolução do ponto de vista do observador”, texto elaborado por Eduardo Passos e André Eirado, é uma sugestão de metodologia, aplicada à Psicologia, muito pertinente no contexto da pesquisa do teatro.
Os autores articulam a metodologia com três planos de ação: a transversalidade, a de implicação e a de dissolução do ponto de vista do observador. As convenções da comunidade científica foram alvo de muito debate no âmbito dos pressupostos da objetividade no que tange a observância do conhecimento. No entanto, as ciências humanas ao longo dos tempos têm apresentado alternativas de utilização e aplicação dessas ciências, às vezes contrapondo-as, às vezes complementando-as.
Os autores propõem prensar o método cartográfico como uma possibilidade de aplicação nas ciências humanas e sociais, em detrimento de apenas fixar-se à crítica dos métodos e procedimentos inexoráveis da ciência pura, a esta, a ciência positivista, há uma separação visível e grupalmente acordada, “a neutralidade e objetividade do conhecimento, ambas garantidas pela distância mantida entre aquele que conhece e aquilo que deve ser conhecido” (Passos e Eirado, p. 155), no sentido de obter a eficácia dos resultados esperados nos experimentos. Sujeito e objeto se diferem, absolutamente, emergindo uma relação cognoscente a partir da postura de terceira pessoa. Podemos pensar nas experimentações científicas do rato e do macaco sultão behavioristas, que nos revelam um método imerso na concepção da pura insubordinação dos pontos de vistas, tendo-se, pois, um e exclusão automática dos demais. Onde os olhares acerca do objeto, verticais e/ou horizontais, se fecham nessa bilateralidade. Entretanto, muito se tem questionado essa redoma ao qual o objeto e sua significação/interpretação ficam refém, inviabilizando possibilidades de significados por outros meios e pontos de vista, como afirmam Passos e Eirado (p. 115) “coloca-se em questão o olhar de cima da ciência e a ação judicativa de quem avalia o objeto do conhecimento com a distância da neutralidade”. Partindo do ponto vista da neutralidade, não nos detendo e defendendo tal postura, pensaremos aqui o teatro e suas possíveis abertura a essa metodologia.
No contexto teatral há muito vem se debatendo o interstício na pesquisa sobre o teatro e em teatro entre teoria e prática e como esses lados se inter-relacionam na realidade tanto artística quanto acadêmica.
O conceito de transversalidade, proposto no texto dos autores, a óptica do objeto e sua relação com o sujeito muda de proporção, onde a vinda de um terceiro eixo comunicacional com a realidade pesquisada se refaz. Segundo Passos e Eirado:
“o plano da transversalidade expressa uma dimensão da realidade que não se define nos limites estritos de uma identidade, de uma individualidade, de uma força (esse saber, o meu saber, o saber que o outro tem e que pode me transmitir), mas experimenta o cruzamento das várias formas que vão se produzindo a partir dos encontros entre os diferentes nós de uma rede de enunciação da qual emerge, como seu efeito, um mundo que pode ser compartilhado pelos sujeitos”.( PASSOS e EIRADO,   p. 115)
            A transversalidade apresenta um direcionamento no sentido de uma experiência comunicacional agregando linhas de pensamento ainda não vistas ao invés de suprimi-las ou até mesmo eliminá-las do objeto ao qual se propõe a investigar. Meios suscetíveis de habitação de pontos de vista, sem apologias e restrições conceitos dogmáticas e inquebrantáveis. O tratamento do objeto dar-se-á por múltiplas versões de olhares interiores e exteriores, fornecendo não apenas uma opinião hegemônica, mas possíveis multilateralidade de significação.
            No teatro o método cartográfico é uma boa possibilidade de caminhada em busca do não possível positivista. Quais as linhas sensoriais que um trabalho teatral pode me oferecer enquanto pesquisador-atuante? Quais as linhas que limitam a minha relação com a obra pesquisada? A cartografia nas Artes Cênicas pressupõe percepções e sensações que o meio investigado desabrocha no corpo do cartógrafo, indo de encontro à barreira sujeito/objeto.
            A transversalidade cartográfica não está ligada à descrição (Etnografia) ou medições da obra, mas sim, a busca de sentido no lineamento de enunciações possíveis na obra. No campo do teatro uma relação de distanciamento também é possível, comumente aplicada nas universidades (Mestrado e Doutorado), mas o resultado nem sempre condiz com o que foi proposto. O que está disposto à imersão na obra, na pesquisa e lançar mão de mecanismos de apreensão do subjetivismo é, talvez, um caminho um pouco menos angustiante, onde as ondas do que não se pode ter no plano do concreto agem no sujeito advindo daí uma terceira perspectiva ou eixo inviável numa postura positivista de neutralidade e distancia do sujeito em relação ao objeto. Aqui sujeito e objeto se justapõem criando imagens, sensações que por mais, no plano do senso-comum, esteja na abstração, a sua interferência na realidade e possíveis modificações são reais de ocorrerem. Assim, podemos pensar a cartografia como um meio eficaz de apreensão de uma linguagem efêmera, fugaz e condicionante à transcendência.
REFERÊNCIAS

PASSOS, E. EIRADO, A. Cartografia como dissolução do ponto de vista do observador. 

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Conheça o Núcleo de Pesquisas Teatrais Rascunho

Com o objetivo de pensar, experimentar, pesquisar e produzir teatro criamos o Núcleo de Pesquisas Teatrais Rascunho. O Núcleo é formado por graduados, graduandos do curso de Licenciatura em Teatro e do Mestrado em Cultura e Sociedade da Universidade Federal do Maranhão. Criado em 2010 com o intuito de propagar de forma qualitativa os trabalhos dos pesquisadores que o compõem. "Rascunhando pensamentos estéticos & rabiscando as paisagens da cena contemporânea"

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